Em uma semana marcada pelo Dia das Mães, programa em Campinas mostra que presença, cuidado e referência constroem vínculos capazes de transformar vidas
Era sexta-feira à tarde quando o menino pediu licença para contar uma coisa. Tirou do bolso um papel dobrado e começou a ler em voz alta. Leu o texto inteiro, palavra por palavra. Quando terminou, sorriu, emocionado. Aquele texto era dele. A professora havia ajudado, mas era ele quem estava lendo.
No banco da frente do carro estavam Rosa Sussana Cosvoski Vespasiano e Jean Paul Lima Vespasiano. Todas as sextas-feiras, eles buscavam o menino na casa-lar. Ele tinha 8 anos, cursava o 3º ano e, quando entrou na vida do casal, ainda não sabia ler.
Rosa é bancária e formada em Direito. Jean Paul é seu marido. Os dois moram em Campinas. A rotina do casal mudou no fim de 2024, quando decidiram participar de um trabalho social.
Durante uma viagem de férias, Jean Paul comentou sobre um projeto voltado a crianças. Ao mesmo tempo, Rosa encontrou em mensagens antigas do celular uma informação sobre o Apadrinhamento Afetivo. Era 28 de dezembro de 2024. Ela respondeu imediatamente.
Apadrinhamento Afetivo
O Apadrinhamento Afetivo é um programa voltado a crianças e adolescentes de 7 a 17 anos e 11 meses que vivem em acolhimento institucional e têm remota possibilidade de colocação em família substituta. O objetivo do programa é garantir a essas crianças e adolescentes o direito à convivência familiar e comunitária.
O apadrinhamento afetivo não é adoção. Trata-se de uma relação acompanhada tecnicamente, voltada à convivência, à construção de referências e ao fortalecimento de vínculos fora da instituição de acolhimento. Em Campinas, o Acordar (Serviço Complementar de Apadrinhamento Afetivo), da Guardinha (Associação de Educação do Homem de Amanhã), executa o serviço em parceria com a Prefeitura de Campinas desde 2014. Os padrinhos e as madrinhas afetivos passam por formação, avaliação técnica e habilitação pela Vara da Infância e da Juventude antes de iniciar o contato com os afilhados.
No início de 2025, Rosa e Jean Paul fizeram o curso de formação, então oferecido em formato online. A equipe, composta por psicólogos e assistentes sociais, explicou o programa, o compromisso exigido e o suporte disponível. Depois vieram os documentos: certidões negativas criminais e cíveis, comprovantes de renda e comprovante de endereço. Houve também uma visita domiciliar. Por fim, veio a habilitação pela Vara da Infância e da Juventude. Depois da aprovação, a Guardinha chamou o casal. A equipe apresentou o perfil de uma criança.
A aproximação
O menino tinha 8 anos. E estava havia quatro anos em acolhimento institucional.
O processo de aproximação seguiu o protocolo. Primeiro, houve quatro semanas de visitas supervisionadas de uma hora, na própria casa-lar. Depois, houve quatro semanas de saídas diurnas aos sábados, sem pernoite. Só então começaram os finais de semana inteiros.
Nas primeiras visitas, o menino era mais tímido e retraído. Rosa e Jean Paul levaram jogos e fizeram piquenique. Conversaram, contaram quem eram e disseram que tinham cachorros. Aos poucos, o menino foi se soltando. Nas semanas seguintes, ele já chegava dizendo que havia sentido saudade.
Em Sousas, há uma área rural onde se pode andar a cavalo. Rosa anda a cavalo. O menino nunca tinha andado. Ele ficou ao lado do animal com cautela, com a mão presa à de Rosa ou à de Jean Paul, para ter confirmação antes de tocar. Eles diziam que sim, que podia.
O circo marcou outra descoberta. Havia luzes, palhaço e trapézios. O menino nunca tinha estado em um circo. Ele ficou de olhos muito abertos e falou pouco.
Num sábado de vento, eles foram soltar pipa. Jean Paul comprou três. A primeira foi embora porque ninguém amarrou a linha. A segunda quebrou quando o menino tentou aprender a desbicar.
A terceira seguiu o mesmo caminho. No fim da tarde, eles haviam perdido três pipas e não tinham conseguido soltar nenhuma de verdade. O menino achou graça.
Antes de voltar para a casa-lar, ele pediu: “Tia, a gente pode passar na padaria? Eu queria levar um lanchinho para os meus amigos.”
Ele nunca pensa só nele.
Dia das Mães com novo signifidado
Rosa tem uma enteada de 23 anos, filha de Jean Paul de um casamento anterior. Ela própria viveu uma gestação e uma perda, mas não tem filhos biológicos. Na semana do Dia das Mães, essa história ganha outro contorno para ela. Rosa não passou a medir a maternidade apenas pelo nome que se dá a um vínculo. Ela passou a reconhecê-la também nos gestos repetidos, na presença de sexta-feira, na escuta, no cuidado e na disposição de ser referência para uma criança.
O apadrinhamento mudou o que Rosa achava que sabia sobre cuidado. Também mudou o modo como ela via as crianças que ficam nos semáforos ou nos bares vendendo bala. “A minha maior mudança hoje é quando eu vejo um menino no semáforo pedindo. Antes, eu olhava com julgamento, achando que essas crianças eram problemáticas. Elas não são problemáticas. Elas são puro amor”, afirma Rosa.
Ela diz que quem entra no programa pensando que vai ajudar logo descobre o contrário: “Não é a gente que ensina a ele. É ele que nos ensina.”
Jean Paul resume de outra forma: “Ele trouxe disciplina para a nossa vida.”
Em determinado momento, o processo avançou de um jeito que ninguém havia previsto. O menino iniciou uma nova etapa com uma família adotiva. Rosa descreve esse momento como um misto de sentimentos. Ela sentiu alegria ao saber que o menino iria viver com uma família. Também sentiu aperto, saudade antecipada e incerteza sobre a possibilidade de vê-lo novamente.
Eles fizeram um dia inteiro de despedida. O menino contou o que sabia: a nova família tinha uma irmã para ele, um cachorro, três gatos e uma tartaruga. Ele havia gostado deles. Ele achava que seriam o seu pai e a sua mãe.
Rosa levou o menino ao shopping para que ele escolhesse um presente para a nova irmã. Depois, eles montaram juntos um álbum de memórias com fotos do período que haviam passado juntos. Deixaram as últimas páginas em branco, para a nova história.
Na semana seguinte, Rosa perguntou à equipe do Acordar se havia notícia do menino. A equipe respondeu que não. “A gente está aqui na torcida de que esteja tudo certo lá”, disseram.
Diferença para toda a vida
O Apadrinhamento Afetivo, em Campinas, pode acompanhar crianças e adolescentes até os 18 anos, caso eles não sejam adotados antes. O serviço é gratuito para os voluntários e para as crianças atendidas.
“O Apadrinhamento Afetivo é uma iniciativa que transforma vínculos em cuidado, presença e referência. Para crianças e adolescentes em acolhimento institucional, ter alguém disposto a acompanhar sua trajetória com responsabilidade pode fazer uma diferença profunda no desenvolvimento, na autoestima e na construção de projetos de vida”, afirmou Vandecleya Moro, secretária de Desenvolvimento e Assistência Social de Campinas.
Como participar
Os interessados em se tornar padrinhos ou madrinhas afetivos podem entrar em contato com o Acordar, da Guardinha, pelo celular (19) 91 99665-9041 ou e-mail
apadrinhamentoafetivo-acordar@guardinha.org.br. O serviço é executado em parceria com a Prefeitura de Campinas, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social.
Publicado originalmente em: Prefeitura de Campinas